Claude Levi-Strauss enfatizou aspetos comuns na estrutura formal de mitos de diferentes culturas, enquanto outros autores, a partir de uma tradição que passa por Mircea Eliade e Frazer exploraram, fenomenologicamente, os conteúdos ideológicos e sentimentos universais à experiência religiosa.
Uma de suas conclusões é bastante animadora quanto ao futuro dos povos indígenas da região: mesmo com as interferências sofridas por anos e anos de contato com não-índios, os povos do Xingu “estão plenamente conscientes de que viver segundo sua cultura representa algo essencial para sua felicidade. Por isto, o Kuarup de Orlando representou uma reafirmação política pelos índios, dos ideais de diversidade cultural pelos quais lutaram os Villas Bôas.”
O objetivo deste trabalho é o de procurar universais na experiência humana pela comparação de temas centrais da narrativa religiosa dos índios do Xingu e da narrativa religiosa cristã. Enquanto autores como Durkhein, Levi-Strauss e Mircea Eliade sempre buscaram a diferença entre as religiões européias modernas e as dos assim chamados "povos primitivos", Frazer, em que pese o viés etnocêntrico da "Belle Époque", que caracteriza sua obra, procurou as analogias e metáforas comuns à experiência religiosa de muitos diferentes povos, inclusive, mostrando a origem pré-cristã de diferentes rituais e crenças cristãs. Ao contrário de antropólogos como, por exemplo, Levi-Strauss e Evans-Pritchard, que enfatizaram a irredutibilidade do pensamento e das religiões "selvagens" frente aos das culturas ocidentais contemporâneas, Frazer estabeleceu uma continuidade entre todas as culturas religiosas do mundo.
Vamos evitar, neste artigo, a expressão “mito”, por ser sinônimo de "lenda", algo que seria característico dos povos supostamente menos desenvolvidos, do ponto de vista religioso. A idéia de "mito" como algo inverídico ou imperfeito pode ser facilmente perceptível a partir dos significados que são atribuídos ao termo por um dicionário popular brasileiro ("Novo Aurélio"), embora os antropólogos tenham procurado depurar o termo de seus aspectos negativos. Assim, ou todas as narrativas históricas, religiosas e científicas de toda e qualquer cultura, inclusive as nossas, são "mitos", isto é, ou "tudo é mito", ou todos os assim chamados "mitos" seriam, também, narrativas religiosas, históricas ou científicas. Uma breve lembrança sobre estudos recentes sobre a "invenção das tradições", a "construção da história" ou as revisões das idéias científicas bastam para sustentar tal dimensão relativista.
Na visão etnocêntrica dominante, as narrativas religiosas ocidentais não são "mitos", mas a única verdade. Embora o nosso evangelho cristão possa fazer sentido para nós, não o faz, evidentemente, para um maometano e muito menos para um xinguano. A Igreja Católica tem, por avanços e recuos, caminhado, de forma tolerante, na direção do reconhecimento de tal situação através do Ecumenismo, que considera, atualmente, um dos seus objetivos mais importantes. A "descoberta de Deus em outras culturas" define o sentido deste movimento, em que pese o potencial de intervenção colonial e até de agressão a culturas mais frágeis, ainda presentes no conceito de “inculturação" (usado em textos religiosos balizando a ação missionária).
A transcrição das narrativas religiosas, no português quase incompreensível dos índios, em contato recente com a sociedade brasileira, pode ser importante para estudos lingüisticos sobre os "dialetos do contato". Em antropologia social, porém, reforça o estereótipo do "mito primitivo" como oposto à narrativa religiosa característica das religiões ditas monoteistas e, principalmente, da religião cristã. De fato, o "mal português" indígena, freqüentemente infantilizado pela própria relação colonial estabelecida no contato interétnico, é plenamente compatível com a idéia de "mito".
A Antropologia em que pese o exorcismo que vem realizando desde Boas, ainda não conseguiu, de todo, livrar-se do fantasma de Levy-Bruhl1. Substituir o conceito de "mito", com suas ressonâncias semânticas negativas, pelo de "narrativa religiosa", pode representar um passo à frente.
1 Levy-Bruhl acreditava na infantilidade e, portanto, na inferioridade da mentalidade primitiva. Franz Boas teve um importante papel na formulação do relativismo em antropologia.
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