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Entrevista: Oswaldo Reis

Entrevistas | 18/02/2003 | Fonte: Rota Brasil Oeste

Jornal do Brasil - Entrevista com o médico Oswaldo Reis.

– E a população indígena?

– A gente não trabalhou oficialmente com a população indígena porque a Funai não deixou. Nem com os povos bororos e xavantes que estavam ali perto. Mas a gente trabalhou assim mesmo porque a missão nos chamava, os próprios índios nos chamavam. Mas não havia um convênio com a fundação porque ela nunca quis fazer, enfim, ela consideravam-se auto-suficientes.

– Como era o atendimento aos índios?

– Por exemplo, fazíamos uma triagem de muitos pacientes indígenas que vinham de Bananal, através do CAN (Correio Aéreo Nacional). Mandávamos alunos para ajudar os médicos da Aeronáutica. Esse era um programa excelente. Se o doente tivesse uma gravidade pequena, que pudesse ser atendido em Xavantina, ficava em Xavantina com os nossos alunos. Assim evitávamos uma coisa que era comum na época que era transportar os índios desnecessariamente.


Marina Villas Bôas e Dr. Oswaldo Reis atendendo a uma índia Kamaiurá grávida com tuberculose. Foto: Acervo Dr. Oswaldo Reis.

– O trabalho dos médicos respeitava a cultura de cada comunidade indígena?

– Sim, por exemplo, nunca permiti que tirassem plantas medicinais sem acordo com os índios. Até porque não era o nosso objetivo. Sempre deixei eles fazerem a medicina ritual deles. Quando chegava na aldeia, enquanto eles estavam atuando com o ritual, não os incomodava. Eu via crianças xavantes com diarréia depois da festa do tamanduá. Era a iniciação, colocavam aquela carne apodrecida e as crianças entravam em diarréia. Os alunos ficavam apavorados. Mas eu sabia que ninguém morreria com aquilo. Vinha a diarréia, mas depois se adaptavam. É o que nós chamamos de adaptação eco-biológica. Eu não interferi. E os padres italianos da missão dos xavantes queriam interferir nisso e eu mostrei a eles que seria uma tolice. Tínhamos de respeitar os hábitos. Eu não criava juízo de valores sobre a atividade deles. As freiras enfermeiras que vinham da Itália, queriam mudar, brigavam.

– Como é que o senhor acha que foi o atendimento das populações no Xingu?

– A Escola Paulista de Medicina tinha um trabalho de campo no Xingu, mas fui muito crítico dele. Eles usavam a região muito mais para pesquisa do que para fazer um atendimento regular, sistemático, inclusive com treinamento dos índios. Era uma população dependente deles e eles não estavam lá permanentemente. Iam lá tirar material para fazer pesquisas. Achava que isso não era correto, isso é uma coisa secundária. Acredito que a pesquisa deve ser uma conseqüência da nossa atividade médica e não prioridade. Nunca permiti essa postura de nenhum professor. Eles faziam pesquisa, mas era uma conseqüência de outra atividade. Esse era o enfoque que eu dava, distinto dos outros campus que faziam muita pesquisa ou senão o assistencialismo quantitativo: número de atendidos, número de exames de fezes. Estatística pura.

– O garimpo também era uma presença constante na região...

Os garimpeiros davam alguma sobrecarga ao hospital. Eles chegavam lá e queriam atendimento gratuito. Mas tínhamos condições de verificar, através dos receptadores em Barra do Garças, quem eram os mais ricos para pedir uma contribuição. Mas a gente atendia a todos eles, pagando ou não. Mas muitos foram motivados e pagavam o atendimento com material hospitalar. Tinha um negócio interessante também, que a gente fazia autópsia de crimes. De vez em quando aparecia um garimpeiro morto descendo o rio que a polícia nos levava. Os alunos tiveram uma experiência fabulosa, algo que eles não podiam imaginar. Ficavam impressionados em ver aquilo lá era outro mundo.

– Em termos de políticas de saúde pública, o campus foi uma ação efetiva para o Centro-Oeste?

– Não, porque não teve continuidade.

– E enquanto funcionou?
– Enquanto funcionou, sim. Mas eu acho que essas coisas não podem ser feitas no espaço de menos de 10 anos, em se consolidar, e o período foi muito curto. Eu fiquei lá de 1969 até 1976, muito pouco tempo.

– O senhor acha que esse projeto deveria ter uma continuidade? Por que ele acabou?

– Primeiro, ele foi criado no período militar. Então houve muito preconceito porque aquilo era dos militares e diziam que aquilo era uma maneira dos militares ganharem simpatia dos estudantes. Enfim, havia uma série de viés ideológicos ao invés de saber aproveitar a oportunidade. Depois, as próprias universidades não institucionalizaram, quer dizer, não assumiram isso. Ficou apenas como um programa efêmero, talvez para satisfazer o Ministério do Interior, para satisfazer o governo. Eles não estavam muito interessados em institucionalizar.


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