Release – VII Edição dos Jogos dos Povos Indígenas

Porto Seguro (BA) será palco para a VII Edição dos Jogos dos Povos Indígenas entre os dias XXXXXXXX. São 1230 atletas indígenas de 53 etnias nacionais e internacionais. As provas esportivas serão disputadas na Reserva Florestal de Jaqueira, que fica a 12 quilômetros de Porto Seguro.

Realizados desde 1996, os Jogos têm por finalidade o consagramento entre os povos indígenas para incentivar, valorizar e fortalecer a prática dos esportes tradicionais em suas raízes. Isso possibilita o respeito às diferenças e promove a diversidade cultural étnica que caracteriza o Brasil Indígena. Durante os Jogos, as etnias apresentam suas manifestações culturais e ainda realizam provas esportivas. Os Jogos despertam a atenção da imprensa nacional e internacional. O evento traz o lema: “o importante não é competir, mas sim celebrar”.

Na última edição, em Palmas – TO, participaram mais de mil indígenas de 47 etnias do País. Além dos índios brasileiros, indígenas da Guiana Francesa e do Canadá também estiveram presentes.

Os Jogos dos Povos Indígenas é patrocinado pelo Ministério dos Esportes em parceria com o Governo da Bahia, tem o apoio da Prefeitura de Porto Seguro e do Comitê Intertribal Memória e Ciência Indígena.

O local

Com 117 mil habitantes, Porto Seguro é uma das cidades mais visitadas do País. Os Jogos Indígenas pretendem atrair turistas interessados na causa indígena e os que querem visitar as belezas naturais e conhecer o patrimônio histórico.
 
A Reserva da Jaqueira é um dos pontos de eco-turismo da região. Na reserva, que faz parte da Mata Atlântica, os visitantes podem conhecer um pouco sobre a cultura pataxó, uma das primeiras que tiveram contato com os portugueses.

As modalidades

Algumas provas esportivas são competitivas, outras servem apenas como demonstração: a Zarabatana é exclusiva dos Matis (AM) e o Futebol de cabeça – Xikunahity, dos Enawenê-nawê ( MT) e dos Paresi (MT).  As provas esportivas que têm mais participação dos atletas indígenas são o Arco e Flecha, Canoagem, Corrida de Tora e Lutas Corporais. 

Modalidades

Arco e Flecha

O arco e flecha é um instrumento utilizado, atualmente, para a caça, pesca e rituais religiosos. Para a prática esportiva, o arco é feito do caule de uma madeira escura (tucum) encontrada próxima aos rios. O tamanho do arco obedece às necessidades do uso, de acordo com a cultura de cada etnia.

A flecha é feita de taquaral ou caninha, uma espécie de bambu. Cada etnia confecciona a ponta da flecha de uma forma. Existem dois tipos de flecha: as longas e as “serra” – usadas na pesca. Para fabricar a flecha, alguns povos indígenas utilizam ossos e dentes de animais. Como o arco e flecha é muito utilizado no dia-a-dia, os povos indígenas criaram uma variedade imensa de arcos, flechas e lanças.

A primeira disputa do Arco e flecha foi durante a primeira edição dos Jogos dos Povos Indígenas, em Goiânia (1996). Lá, foram utilizadas flechas cedidas pela organização dos jogos. Nos outros anos, cada povo trouxe o material esportivo para disputar a prova.  Assim, o atleta pôde aprimorar a técnica de sua cultura.

O arco é flecha é uma prova individual. Neste ano, a novidade é a extensão da modalidade às mulheres. Cada delegação indígena escolhe dois representantes para a competição e cada atleta tem direito a somente três lances. O alvo é um desenho de um peixe distante aproximadamente 30 metros dos competidores. A contagem de pontos é feita com a soma de acertos em cada área do alvo, que tem pontuações variadas e definidas pela Comissão Técnica dos jogos. É competida em duas etapas: eliminatória e classificatória. Nessa segunda fase, a contagem de pontos é reiniciada para decidir o primeiro, segundo e terceiro colocados na prova. Somente doze atletas disputam a final do Arco e Flecha.

Cabo de Força

Prova que mede a força física dos povos indígenas, o cabo de força (ou cabo de guerra) é muito aceito por todas as etnias participantes dos Jogos. É uma das modalidades mais esperadas pelos participantes, que assim podem mostrar o resultado de um treino anterior que consiste em puxar troncos de árvores nas aldeias. É uma modalidade coletiva disputada desde a primeira edição dos Jogos Indígenas.

Cada delegação indígena poderá inscrever no máximo duas equipes – feminina e masculina – de dez atletas. Haverá sorteio para compor as chaves de competição. A prova é eliminatória até que se chegue a uma equipe vencedora.

Canoagem

Nas aldeias, a canoa é utilizada como meio de transporte e cada povo tem uma maneira de fabricá-la. Nos Jogos, a prova de canoagem é realizada em um lago, rio ou mar e é disputado em equipes. Por causa da tecnologia de cada povo, a etnia que fabrica a canoa utilizada na prova desde a terceira edição dos Jogos é a Rikbatsa (MT), conhecida como etnia de exímios canoeiros. 

Cada povo indígena inscreve uma dupla para concorrer ao sorteio de canoas que serão usados na prova. A distância e o percurso serão definidos pela Comissão Técnica. Apenas o primeiro colocado de cada bateria de competições participará da fase final composta por um número de equipes correspondente ao número de canoas disponíveis na prova. O vencedor é aquela dupla que ultrapassa a linha de chegada.

Atletismo (Corrida de 100 metros)

O modelo ideal de corrida para os Jogos dos Povos Indígenas é a de 100 metros rasos, definida a partir da terceira edição dos jogos. Cada delegação indígena pode inscrever duas equipes, feminina e masculina, composta de dois atletas. O número de largadas é definido pela Comissão Técnica de acordo com o número de atletas inscritos. Classificam os primeiros colocados das equipes que participaram da primeira largada e chegaram à largada final.

Corrida de Tora

Somente algumas etnias praticam essa modalidade: Krahô, Xerente e Apinajé, Xavante, Javaé, Kanela, Xikrin, Tapirapé, Krykati e Gavião. Cada povo indígena respeita aspectos de sua cultura na realização da Corrida de Tora.

A preparação das toras, geralmente, é feita com um tronco de uma palmeira chamado buriti. É cortada em dois cilindros iguais e na extremidade, é feito um tipo de cava, para que possa ser segurada mais facilmente. De acordo com o ritual, pode pesar entre dois a 120 quilos. As toras são encharcadas dentro da água para ficarem mais pesadas.

Foi só na sexta edição dos Jogos Indígenas, em Palmas, que a Corrida de Tora teve a participação de várias etnias. Foi a primeira vez que a prova assumiu o caráter intertribal. A competição é observada por cinco juízes não–indígenas que avaliam as equipes com dez corredores e três reservas cada. Quem seleciona as toras utilizadas e o número de voltas a serem dadas, largada e chegada na corrida é a Comissão Organizadora. Duas equipes escolhidas por meio de um sorteio prévio participam da largada. A prova é composta de uma fase eliminatória até que se chegue a uma equipe vencedora. Não há participação feminina nesta modalidade.

Xikunahity (Futebol de cabeça)

É praticado pelos Enawenê-Nawê e pelos Pareci, do Mato Grosso. A pronúncia correta do futebol de cabeça é Zikunariti. O futebol de cabeça é uma modalidade em que o chute da bola só pode ser feito com a cabeça do atleta. É disputado por duas equipes com até dez atletas e mais um capitão. O Xikunahity é realizado em campo de terra batida, com o mesmo tamanho de um campo de futebol comum, para que a bola ganhe mais impulso.

A partida começa quando dois atletas de cada equipe vão até o centro do campo e rebatem a bola, com uma cabeçada, à outra equipe. Durante a disputa, os dois atletas que começaram o jogo saem do campo. A bola não pode ser tocada com a mão, somente com a cabeça. Os atletas se atiram e mergulham com o rosto rente ao chão. A equipe marca pontos quando a bola não é devolvida pelos adversários, ou seja, quando deixa de ser rebatida.

De acordo com a lenda Pareci, o Xikunahity foi criado por Wazare, principal entidade mítica da etnia. Depois de cumprir a missão de distribuir o povo Pareci por toda a Chapada dos Parecis, Wazare fez uma grande festa de confraternização antes de voltar a seu mundo. Durante a festa, a entidade mítica mostrou a todos a função da cabeça no comando do corpo, e a capacidade de desenvolver a inteligência alcançando a plenitude mental e espiritual. Ele também demonstrou que a cabeça poderia ser usada em atividades físicas.E foi assim que, pela primeira vez, o futebol de cabeça foi apresentado aos índios.

A bola utilizada no jogo é fabricada pelos próprios Parecis. É feita com um tipo de látex de uma árvore chamada mangabeira. Na primeira etapa de confecção da bola, a seiva é colhida e colocada sobre uma superfície lisa, onde permanece por certo tempo, até formar uma camada ligeiramente espessa. Na segunda fase, a seiva de mangaba é aquecida em uma panela e aí, forma-se uma película. Com as extremidades unidas – de modo a formar um saco – o “pastel” será inflado com ar por meio de um canudo. Depois, o látex ganha formas arredondadas e recebe mais camadas da seiva, até formar uma bola. A bola tem aproximadamente 30 cm de diâmetro.

Arremesso de Lança

O Arremesso de Lança é uma prova individual realizada apenas pelos homens. A contagem dos pontos é feita de acordo com a distância alcançada, ou seja, vence aquele que atingir a maior distância. As lanças são cedidas pela Comissão Técnica de Esporte, e fabricadas com madeira rústica.

Várias etnias indígenas preservam as diferentes técnicas de acordo com sua cultura. A fabricação de cada lança depende da finalidade a que se destina. Comprimento, ponteiras de ossos, pedras ou mesmo madeiras mais duras, como a aroeira ou pau de ferro são avaliados. Na tradição indígena, é usada para caça, pesca (arpão) ou para defesa em um ataque de animal feroz.

Luta Corporal

As lutas corporais são praticadas por homens e mulheres e o esporte está inserido na cultura t

radicional dos povos Xinguanos, Bakairi, Xavante, Gavião Kyikatêjê/Parakatêye e Karajá. Algumas etnias lutam em pé, outras ajoelhadas no chão(Huka Huka). Por isso, fazem-se apenas demonstrações das lutas existentes na cultura indígena brasileira.

O Huka-Huka , tradicional dos povos indígenas do Xingu e dos índios Bakairi, começa quando o dono da luta, um homem chefe, caminha até o centro da arena e chama os adversários pelo nome. Os lutadores se ajoelham girando em circulo anti-horário frente ao oponente, até se entreolharem e se agarrarem, tentando levantar o adversário e derrubá-lo ao chão. Já, os Karajás do Tocantins possuem outro estilo. Os atletas iniciam a luta em pé, se agarrando pela cintura, até que um consiga derrubar o outro ao chão. O atleta vencedor abre os braços e dança em volta do oponente, cantando e imitando uma ave. Os Gavião Parakateyê, PA, e os Tapirapé e Xavante de Mato Grosso, têm uma certa semelhança no desenvolvimento das lutas com os Karajá. Nessa demonstração, não existe juiz, e sim um orientador indígena. Não há prêmio para o vencedor da luta, há reconhecimento e respeito por toda a comunidade indígena.

Natação

Presente desde os I Jogos em Goiânia, em 1996, a natação é praticada por homens e mulheres. A prova de meia distancia e resistência é realizada em águas abertas, rio ou mar.

A água é um elemento sempre presente na relação de vida dos povos indígenas A primeira hora da vida de um bebê indígena começa com o primeiro mergulho em um rio ou lago. Grande parte da recreação das crianças é realizada dentro d`água, atravessando de uma margem a outra ou se preparando para serem grandes caçadores de peixes. Um dos rituais mais importantes da cultura Xavante é feito dentro do rio, quando os adolescentes se preparam para um ritual de passagem para a vida adulta. Na furação da orelha, um grupo permanece mergulhado até a altura do peito e nesse período, batem simultaneamente os braços, realizando uma coreografia aquática. Eles acreditam que assim haverá o amolecimento do lóbulo auricular, facilitando a furação.

Zarabatana

É uma demonstração individual realizada apenas pelas etnias Matis e Kokama. Os atletas se posicionam, a 30 metros do alvo – uma melancia pendurada em um tripé. A prova consiste em atingir a melancia o maior número de vezes possível.

A Zarabatana é uma arma artesanal, semelhante a um cano longo, com aproximadamente 2,5 m de comprimento. É feito de madeira e tem com um furo por onde se coloca uma pequena seta, de aproximadamente 15 cm. Por ser silenciosa e precisa, a zarabatana é muito utilizada pelos índios amazônicos para caçar animais e aves.

Rõkrã

O Rõkrã é um jogo coletivo tradicional praticado pelo Povo Kayapó (PA). Os atletas jogam em um campo de tamanho semelhante ao do futebol. Duas equipes de 10 ou mais atletas se posicionam em lados diferentes do campo. Com um bastão, os atletas devem rebater para o lado adversário uma pequena bola, feita de côco.Quando a bola ultrapassa a linha de fundo do outro time, a equipe marca um ponto. De acordo com informações do povo kayapó, o Rõkrã não estava mais sendo praticado pelos índios devido à violência que causava graves contusões nos competidores. Essa modalidade tem muita semelhança com um dos esportes mais populares do Canadá, o Lacrosse, coincidentemente considerado de origem indígena daquele país.

Histórico dos Jogos

“O necessário, importante, justo é que essa integração de culturas e de povos seja uma decorrência do progresso. Referimo-nos ao progresso, não ao comumente entendido, mas ao progresso da consciência política e social do mundo em seu todo”.
Cláudio Villas Boas

A idéia dos jogos indígenas surgiu quando um projeto para a realização de um grande encontro indígena de intercâmbio desportivo e cultural tradicional foi entregue ao Ministério Extraordinário do Esporte e Turismo, pelos irmãos Carlos e Marcos Terena. A proposta foi concretizada nos dias 16 a 20 de outubro de 1996, na cidade de Goiânia, através do I Jogos dos Povos Indígenas, do qual participaram 25 etnias e mais de 400 atletas. Desde de então, os jogos vêm se afirmando como uma arena do intercâmbio que retrata a diversidade étnica do Brasil.  

Os Jogos dos Povos Indígenas, hoje, é o maior encontro de esportes e culturas das tradições indígenas, que graças aos esforços e atitude desses povos, essa grande manifestação vem sendo retratada.

Além da beleza plástica de cada etnia e da saúde corporal, os jogos Indígenas a cada ano se transformando num cenário lúdico, holístico e desportivo, que celebra o encontro de povos íntegros, que podem transmitir ao mundo moderno uma mensagem de paz. 

Esse intercâmbio esportivo-cultural revela ao público o universo diversificado, que traduz a harmonia e o equilíbrio das sociedades tribais, permitindo que eles próprios conheçam a diversidade cultural que eles representam. É a ocasião propícia para conhecer outros rituais, danças, cantos, pinturas corporais, o artesanato e gestos esportivos, para construir novos valores de relações humanas, exemplificando o dom da partilha ao comemorar uns com os outros e celebrar o verdadeiro sentido de festejar.

A presença das mulheres e seus filhos, dos jovens e dos anciões, da natureza em seus diversos biomas, nos permitem observar o momento da competição, da celebração e podendo chegar a uma reflexão de que “um mundo melhor é possível”.