Exposição mostra civilizações pré-colombianas do Pantanal

Estação Vida – Em março deste ano, um grupo de pesquisadores estará lançando em Cuiabá, Mato Grosso, uma exposição arqueológica inédita no Brasil. O trabalho apresentará vestígios da civilização pré-colonial que ocupou o Pantanal da região de Cáceres (Descalvados) por pelo menos um milênio, entre os anos de 800 a 1.800 DC. Estas populações foram chamadas de Xarayés (donos do rio) pelos exploradores que chegaram à região no século XVI.

Todos os materiais da exposição foram resgatados durante os trabalhos de escavações realizados no sítio arqueológico “Índio Grande”, um cemitério pré-colonial localizado na margem esquerda do rio Paraguai. O local fica pouco abaixo da histórica Fazenda Descalvados – uma propriedade particular criada no final do século XIX, mas freqüentada pelos espanhóis desde o século XVI. O sítio fica a 150 Km da cidade de Cáceres, descendo-se daí pelo rio Paraguai.

A pesquisa

Quando em 1994, durante uma expedição realizada pelo IPHAN, Migliaccio encontrou vestígios arqueológicos na região de Cáceres, não poderia imaginar estar diante da verdadeira história da ocupação do Pantanal, e dos vestígios dos povos mais admiráveis encontrados pelos europeus na área setentrional do Alto Paraguai, que teria motivado o primeiro nome do Pantanal: Mar de Xarayés.

Somente em 1997, através da ong mato-grossense Instituto Centro de Vida – ICV, foi possível conseguir recursos do Fundo Nacional de Meio Ambiente (FNMA) para iniciar os trabalhos de identificação e mapeamento de sítios arqueológicos do Pantanal. Entre eles, “Índio Grande”, que vinha sendo destruído pelas águas do rio Paraguai.

Em 6 anos de trabalho a pesquisa arqueológica se desdobrou em várias direções, investigando, além da cultura material, padrões espaciais de ocupação, ritos funerários e contatos entre distintos povos pantaneiros. Este ano, pela primeira vez, o grupo de pesquisadores pretende apresentar o material coletado nas escavações do sítio arqueológico, numa exposição prevista para o mês de março em Cuiabá.

Quem for à exposição vai poder apreciar, elementos da cultura material admiravelmente preservados. O material tem pelo menos 900 anos, já que foi datado do século XI DC. São vasilhas cerâmicas e adornos: colares, pingentes e tembetás, feitos com líticas (rochosas), conchíferas (conchas) e dentes de animais.Todos esses materiais arqueológicos apresentam qualidade que denota técnica de fabricação esmerada, e uma certa especialização do trabalho.  

Grandes recipientes de cerâmica eram utilizados como urnas funerárias, servindo para serem depositados os mortos, junto com acompanhamentos funerários, tais como: adornos e outras oferendas. O esmero e requinte com que eram realizados os sepultamentos indicam o papel privilegiado que ocupavam os ritos funerários dentro daquela sociedade.

Uma peça significativa da exposição é um colar de mais de 2 mil contas elaboradas sobre material conchífero. Alguns dos adornos são elaborados com matérias-primas inexistentes na região, indicando possíveis contatos com grupos longínquos. Outra evidência disso é a grande semelhança, na forma e na decoração, de uma categoria de tigela de caráter ritual utilizada nos sepultamentos dos Xarayés com a vasilha chua da civilização Inca. 

A arqueóloga Maria Clara conta que apesar de haver provas convincentes de que os vestígios estudados remetem aos povos Xarayés, muitos enigmas ainda estão por ser desvendados. A sua origem, o tempo de sua ocupação, sua organização social são questões ainda sem resposta. Já quanto ao seu desaparecimento, parece não haver dúvidas de que teria ocorrido entre o século XVI e o final do XVII, com a entrada dos exploradores espanhóis pelo rio Paraguai. 

O Mar de Xarayés

Ao analisar as primeiras crônicas coloniais do século XVI, feitas pelos exploradores espanhóis que alcançaram a região, verifica-se que as descrições dos povos Xarayés coincidem com o que foi encontrado nas escavações. Segundo a crônica colonial, desde o estuário do Prata, os Xarayés eram a segunda população de estatura mais alta, sendo superada apenas pelos Yacaré, outro povo hoje também extinto.

As dimensões avantajadas apresentadas pelos restos ósseos do sítio Índio Grande confirmam a elevada estatura da população que ocupava a área. A cerâmica dos Xarayés, considerada “notável” pela crônica, e a forma com que grandes vasilhas de estocagem eram mantidas semi-enterradas como forma de fixá-las no solo, parecem também corresponder à cerâmica arqueológica hoje conhecida como “cerâmica Descalvados”. Vários outros elementos descritos no século XVI, especialmente os adornos labiais (tembetás) também foram encontrados no sítio Índio Grande.

Mas é especialmente a localização dos grupos indígenas dada pelas crônicas, que representa a evidência mais forte de que os vestígios encontrados pelos pesquisadores correspondem aos lendários povos Xarayés. “Mar de Xarayés” teria sido o primeiro nome dado ao Pantanal pelos espanhóis, evidenciando assim, a força da presença daquele povo na região. Infelizmente, os Xarayés estavam nas rotas percorridas pelos espanhóis nas suas tentativas de chegarem aos Incas a partir do rio da Prata. Teriam sucumbido à brutalidade de suas incursões.

Os Xarayés e os Incas

Outra busca dos arqueólogos é de comprovações do que diziam os colonizadores quanto à relação dos Xarayés com os Incas.  A região do Alto Paraguai é considerada uma área de “fronteira cultural” entre populações amazônicas, pâmpidas e andinas.

Geograficamente, o sistema Paraná-Paraguai, complementado por trechos do Chaco Boliviano faz uma ligação entre uma vasta região, da Cordilheira dos Andes ao estuário do Prata, junto ao Atlântico.  A presença dos metais incas no estuário levou os europeus a subirem os rio Paraná e Paraguai, entrando em contato com numerosos e distintos povos indígenas, até alcançarem os Xarayés, no trecho mais setentrional do Alto Paraguai.

A crônica relata a presença de metais incas também entre os Xarayés, que seriam obtidos através de trocas por plumas de aves e mantos tecidos de algodão. Os dados históricos ainda registram que a expansão do Império Inca já incorporava parcelas dos contrafortes andinos, descendo em direção ao Chaco e ao Alto Paraguai. O processo teria sido interrompido pela chegada dos europeus. 

A Fragilidade dos sítios arqueológicos de Cáceres

Conforme os levantamentos realizados pelos pesquisadores, os sítios arqueológicos do Alto Paraguai no trecho do Pantanal de Cáceres estão submetidos a impactos naturais e antrópicos.

Problemas relacionados à ocupação humana atual – desmatamento generalizado, monocultura, e a plantação de pastagens exóticas – associados à intensificação da navegação do rio Paraguai, produzem um quadro de grandes transformações ambientais, no qual um dos mais afetados é o Patrimônio Arqueológico.

Assim, sítios arqueológicos estão sendo destruídos pela expansão da ocupação humana atual, seja urbana ou rural, e pela modificação da paisagem decorrente de empreendimentos causadores de impactos ambientais.

A rapidez com que chega a destruição, em contraposição com a morosidade e dificuldade na obtenção de apoio para realização dos trabalhos de pesquisas e do resgate científico dos sítios em situação de risco, tem sido, sem dúvida, o grande empecilho para que, pelo menos em parte, possa ser conhecido e recuperado esse admirável patrimônio arqueológico.
 
Josana Salles 

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