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Entrevista Orlando Villas Bôas

Entrevistas | 08/12/2003 | Fonte: Rota Brasil Oeste

Durante os anos da Marcha Para o Oeste, não foram raros os momentos de tensão. Eram flechas que caiam no pátio do acampamento, gritos de índios soando próximo e, até mesmo, algumas emboscadas. Mas às vezes eles eram surpreendidos por situações inesperadas nas bases da vanguarda.

Rota: E você já teve alguma situação de tensão no Xingu?

Orlando: Cheguei. Eles estavam fazendo a pacificação dos índios Criaporores e eu estava responsável pelo posto. De repente, eles saíram de viagem para lá e no que o avião decolou os índios Camaridás apareceram no posto e foram matar um feiticeiro. E o feiticeiro correu para a minha casa para pedir segurança, para pedir socorro para mim, mas eram dois ou três índios armados. No que ele entrou na minha casa os índios entraram atrás dele e mataram ele, pegaram ele dentro de um quarto dentro da minha casa. Estava chegando, também, um avião levando um antropólogo americano, um português que residia na América e mais umas três pessoas que trabalhavam aqui em São Paulo e um senhor que ia trabalhar lá que ia me ajudar. Ai o índio entrou na minha casa e os outros entraram atrás e começaram a matar ele dentro minha casa. Eu estava com o Villinha pequeno e ai fiquei desesperada. Peguei o Villinha e dei para o senhor da Funai que estava chegando e falei para ele: "Corre para mato esconde meu filho que eu preciso ficar aqui!" Ai, consegui tirar os índios de dentro da minha casa e elas cortaram o pescoço deste índio na porta, fora da minha casa, mas na frente. Cortaram as unhas dele e mandaram para uma aldeia Uaueti. Depois consegui pegar esse índio antes de morrer, levei para o posto de enfermagem, tentei dar socorro para ele, mas ele não resistiu. O pescoço dele estava praticamente degolado. Mas índios depois foram pedir desculpas para mim, porque eles disseram que não queriam entrar na minha casa, que não era um desrespeito, e que eu podia ficar sossegada que eles estavam preparando presentes para me pagar o susto.

Orlando: Daí aconteceu uma outra. Tinha a casa da Marina, era uma casa de madeira. Tinha uma janela que dava para o pátio. Embaixo dela, do lado de fora tinha uma banco onde o pessoal sentava. Então a Marina, do quarto dela, ficava com a metade do corpo fora da janela, porque a janela era baixa. Ai ela estava lá. Nós tínhamos um trabalhador que era um matador terrível, tinha já umas dezoito mortes, chamava-se Boca Rica, porque tinha todos os dentes de ouro. Eu tinha mandado buscar um trabalhador, um pintor, que era inimigo dele. Os dois não podiam se encontrar. Mas, eu não sabia. Ai, esse pretinho vinha vindo e o Boca Rica estava sentado no banco. Ele vinha vindo, o Boca Rica começou olhar para ele. Ele ficou com medo, arrancou o revólver e dois tiro e matou o Boca Rica. O Boca Rica ainda tirou o revólver, mas o revólver não saia da capa. A Marina assistiu. Elas saiu, conseguiu pegar o Boca Rica, arrastou ele uns trinta metros até o ambulatório para ser se salvava o Boca Rica, mas ele morreu. E o negrinho fugiu. Nunca mais apareceu até hoje, né?

Marina: O Joaquim? Não, ele apareceu. Foi morar num lugarejo. Localizaram ele. Depois disso ele matou mais dois. Ele nunca tinha matado ninguém, ai ele criou coragem depois que matou o Boca Rica, ele achou fácil e ai começou.

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Orlando e sua esposa, Marina Villas Bôas, contam um pouco sobre a família do índio brasileiro, a situação da mulher e da criança na tribo.

Os primeiros passos da Expedição Roncador-Xingu.

Documentário

Ouça o documentário produzido para o Rota Brasil Oeste sobre o trabalho dos irmãos Villas Bôas e a Marcha para o Oeste.

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