A Expedição exerceu, durante sua época, um grande fascínio sobre a população brasileira e internacional. A região oeste do país era uma das mais selvagens e desconhecidas no mundo. Além disso, o prestígio e o bom trabalho de maketing dos Villas Bôas atraíram inúmeros repórteres e celebridades aos acampamentos da Marcha Para o Oeste.
Rota:Como foi essa relação com a mídia da época?
Orlando: A revista Cruzeiro, sua grande fase, foi no sertão. Venderam muito. O Jorge Ferreira (fotógrafo) mora aqui, ainda, perto de Botucatu. Ele foi um os grandes repórteres nossos, e atrás dele e da revista, tinha o Assis Chateaubriand, grande amigo nosso. De vez em quando ele ia para o Xingu, ia com uma comitiva de cinco, até dez pessoas. Eu hospedava todo mundo, contava história, e o Assis era uma figura que gostava muito de mim. Eu também era correspondente do repórter Esso, falávamos via rádio direto dos ranchos.
Rota: Além do Chateau, quais outras figuras famosas visitaram o Xingu? De quem mais você lembra?
Orlando: Ah... teve muitos! Getúlio esteve lá...
Rota: Foi uma visita muito rápida?
Orlando: Não, em Xavantina ele ficou uma semana. Estavam ele e o Dutra. Ele estava sentado, e o Dutra do lado, os dois conversando. E o chefe da Expedição, coronel Flaviano de Matos Vanique, disse: "Villas Bôas, você fica perto lá do presidente. Se ele precisar de alguma coisa, ele chama você." Eu falei que tava bom, e ficava há distância de uns 10 metros do presidente, para não ouvir o que ele estava conversando com os ministros dele. De repente, o Vanique resolve conversar com o presidente, o Getúlio conversando com o Dutra, e eu, há uns 10 metros. O Vanique passou a mão em uma cadeira e pôs entre o cidadão e o Getúlio, para conversar com ele. O Dutra era uma figura importante pra burro, e quando o Vanique deu as costas para ele, para conversar com o Getúlio, o Dutra se levantou e foi embora. O Getúlio ficou bravo com o coronel: "Vanique! Você ficou de costas para o seu Ministro da Guerra, Vanique!" Ele era coronel, e o outro, Ministro da Guerra. " Você virou de costas para o seu ministro! Você não tem educação?" O Vanique levantou e disse: "Não, Presidente. Eu precisava conversar com o senhor..." "Conversasse outra hora! Vai embora daqui, Vanique!" Só eu que ouvi, e o Vanique tinha uma cisma comigo, desgraçada, porque eu assisti o pega que o Getúlio deu nele.
Rota: E personalidades internacionais?
Orlando: Pessoas importantes pra burro estiveram lá. Lévi-Strauss passsou em tempo conosco, o maior antropólogo do mundo. Ele era muito fino. Nós recebemos também Leopoldo III da Bélgica, o rei. Ele foi passar dois dias e ficou 58. Apaixonou-se por aquilo. Onde ele andava, andavam 10, 20 menininhos junto dele, pegando peixinho. Porque ele era um ictiólogo muito famoso, ele fazia classificação de peixe. Tinha levado o material para pescar e levar para a Bélgica e fazer classificação. E ele se apaixonou por um menino, chamado Acanái, que hoje já é homem feito. E o rei gostava do Acanái, ele era um indiozinho de 8, 10 anos, muito inteligente. Quando o rei desceu do avião, estava cheio de índio ali, ele cumprimentou um ou outro. De repente, ele viu o Acanái e foi lá, apontou assim e o Acanái disse: "Acanái". Ele bateu no peito e disse: "Leopoldo". Aí não largou mais do Acanái, queria levar ele pra Bélgica e eu não deixei. Um dia, nosso terreno tava meio sujo, o rei passou a mão numa enxada e começou a capinar. Desceu um repórter francês, era proibido descer repórter lá, mas um desgraçado de um francês conseguiu descer com um aviãozinho e veio conversar com o rei. Perguntou o que ele tinha pra falar. Ele disse: "Deixei o meu reino distante, para vim capinar em terra de índio." Ele contava coisas fantásticas pra gente. Ele dizia: "Uma vez eu estava no palácio, em Bruxelas, e chegou uma comissão de alemães mandada por Hitler. A comissão tinha um bilhete do Hitler dizendo o seguinte: Peço autorização para Vs. Alteza para invadir a Bélgica para atacar a França". Isso no tempo da guerra. Perguntei o que ele tinha feito, ele disse que fez um não desse tamanho e mandou para eles. Eu falei, "Pôxa, beleza". Ele disse "não, não foi nada bonito". Uns dez dias depois, veio outra comissão de cinco oficiais alemães e um bilhete de Hitler: "Diga sim, ou eu destruo a Bélgica". Eu perguntei "o que o senhor fez?" e ele respondeu "eu disse sim". Aí, a tropa alemã entrou na Bélgica via terra, contornou a Linha Marginault, e atacou a França.
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Documentário Ouça o documentário produzido para o Rota Brasil Oeste sobre o trabalho dos irmãos Villas Bôas e a Marcha para o Oeste.
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